27 de maio de 2026

Plataforma inédita na América Latina impulsiona aprendizado federado para treinamento e modelagem de dados veiculares

Infraestrutura desenvolvida por meio do programa Mover permite treinamento colaborativo de modelos de inteligência artificial sem centralização de dados sensíveis

Uma plataforma inédita na América Latina está permitindo o desenvolvimento, treinamento, teste e validação de modelos de inteligência artificial aplicados à cadeia automotiva sem a necessidade de centralizar dados sensíveis. A Flautim, iniciativa integrada à Linha VI - Conectividade Veicular, do programa Mover, coordenada pela Fundação de Apoio da UFMG (Fundep), foi desenvolvida para impulsionar a inovação no setor automotivo por meio do uso seguro e inteligente de dados distribuídos.

Desenvolvida pelo FutureLab, laboratório do Departamento de Ciência da Computação da Universidade Federal de Minas Gerais (DCC-UFMG), a solução utiliza a abordagem de aprendizado federado (federated learning), na qual os modelos são treinados diretamente nas fontes de dados (como veículos, frotas e sistemas distribuídos), compartilhando apenas parâmetros e atualizações dos modelos, e não os dados brutos. A proposta possibilita a construção de modelos colaborativos mais robustos, preservando privacidade, confidencialidade e governança das informações.

Crescimento da conectividade amplia desafios de privacidade e infraestrutura

O avanço da conectividade veicular levanta uma discussão sobre a utilização e a proteção de dados. O professor do DCC-UFMG, Frederico Guimarães, que atua na coordenação técnica da Linha VI do Mover, explica que o cenário regulatório global mudou significativamente nos últimos anos, especialmente após a GDPR europeia e a entrada em vigor da Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD) no Brasil. “Hoje, empresas que atuam no setor automotivo precisam desenvolver soluções alinhadas a requisitos cada vez mais rigorosos de privacidade, segurança e governança de dados, tanto no contexto brasileiro quanto internacional”.

Segundo ele, os veículos atuais possuem uma quantidade crescente de sensores, sistemas embarcados e recursos de telemetria que geram volumes massivos de dados. Esses dados são enviados para a nuvem, onde são processados para análises estatísticas, treinamento de modelos de inteligência artificial e desenvolvimento de novos serviços digitais. “Posteriormente, os resultados retornam aos veículos por meio de atualizações over-the-air (que eliminam a necessidade de cabos ou visitas físicas), impactando diretamente funcionalidades, desempenho e experiência do usuário”.

Embora o modelo centralizado em nuvem tenha impulsionado o desenvolvimento da conectividade veicular, ele também apresenta limitações importantes. O crescimento do volume de dados transmitidos aumenta significativamente os custos de comunicação e a demanda por largura de banda. Além disso, a transmissão contínua de dados sensíveis levanta preocupações relevantes relacionadas à privacidade, segurança e conformidade regulatória, especialmente em um contexto de expansão acelerada da frota conectada.

Aprendizado federado reduz necessidade de centralização de dados

O aprendizado federado surge como uma alternativa tecnológica promissora para esse cenário, integrando, desde 2022, a Linha VI - Conectividade Veicular, do programa Mover.

Frederico explica que, com o aprendizado federado, a lógica muda completamente. Em vez de enviar os dados para a nuvem, o treinamento dos modelos ocorre diretamente no veículo, na borda. “Apenas os parâmetros ou modelos treinados são compartilhados com a nuvem para agregação colaborativa. Isso possibilita construir inteligência coletiva sem a necessidade de centralizar dados sensíveis, preservando a privacidade e reduzindo drasticamente o volume de transmissão”, reforça.

Entre as principais vantagens está a possibilidade de realizar o aprimoramento contínuo dos modelos mantendo os dados na ponta. Isso reduz custos de comunicação, fortalece a aderência à Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD) e cria condições para modelos mais personalizados e contextualizados. Além disso, o aprendizado cooperativo entre diferentes veículos permite construir soluções mais robustas, capazes de aprender a partir de diferentes realidades, regiões e padrões de uso.

Apesar do potencial, implementar aprendizado federado no contexto veicular envolve desafios técnicos complexos. “Os dados são naturalmente heterogêneos, porque os veículos operam em diferentes condições, regiões e perfis de condução. Além disso, é necessário lidar com restrições computacionais embarcadas, mecanismos de orquestração dos treinamentos, sincronização dos modelos e ajustes finos de desempenho”, destaca o pesquisador.